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NA GUCCI DE DEMNA, O CORPO VOLTOU A SER O SUFICIENTE.

  • 10 de jul.
  • 3 min de leitura

Com 'Primavera', sua primeira coleção completa em passarela, Demna encerrou dez anos de maximalismo e devolveu à Gucci algo que ela havia esquecido: a roupa que não precisa de personagem para existir.

 

Existe um tipo de silêncio que só quem esteve muito tempo falando alto consegue produzir com autoridade. É o silêncio de quem sabe o que está deixando de fazer e escolhe deixar. A coleção Primavera, com a qual Demna Gvasalia apresentou seu primeiro trabalho completo em passarela pela Gucci, em fevereiro de 2026, é esse tipo de silêncio. Uma declaração feita pela subtração.


Por dez anos, sob Alessandro Michele, a Gucci construiu um universo de referências tão denso que a roupa havia se tornado, em certa medida, o suporte de uma narrative, não o objeto central. Camadas sobre camadas, personagem sobre personagem, cada coleção um novo capítulo de uma enciclopédia visual que exigia do comprador não apenas desejo, mas disposição para habitar um mundo inteiro. Foi brilhante enquanto o mercado tinha fôlego para esse tipo de atenção. Quando o fôlego acabou, a Gucci ficou com um guarda-roupa muito cheio e um argumento difícil de resumir.


Demna chegou com outro tipo de argumento. Primavera, apresentada no Palazzo delle Scintille, em Milão, devolveu o corpo ao centro do quadro. Silhuetas que aderem, que definem, que partem da presença física de quem vai usar a peça e não do conceito que ela deveria ilustrar. A referência que o mercado identificou imediatamente foi Tom Ford — a Gucci de 1995, 1996, 1997, quando a casa reinventou o que luxo sensual significava. Mas a leitura mais precisa é outra: Demna não está citando Ford. Está fazendo a mesma pergunta que Ford fez, o que acontece quando a roupa de luxo para de tentar explicar alguma coisa e começa apenas a fazer o corpo existir com mais intensidade?


A resposta que Primavera oferece é que ainda funciona. E funciona com uma eficiência que o maximalismo, por definição, não pode ter, porque o maximalismo exige contexto, e o corpo não exige nada além de roupa que o trate como o que é. A Gucci de Demna não é minimalista no sentido de vazia. É minimalista no sentido de precisa. Cada peça justifica sua própria existência sem precisar de nenhuma outra ao redor.

A trajetória até Primavera começou antes da passarela. Em setembro de 2025, Demna apresentou La Famiglia um lookbook de 38 personas fotografadas por Catherine Opie, com um curta-metragem dirigido por Spike Jonze e Halina Reijn.



A escolha de começar pelo lookbook, e não pela passarela, foi estratégica em um sentido que o mercado nem sempre leu com clareza: ele estava dizendo que a Gucci que vinha não ia se explicar pelo espetáculo do desfile. Ia se explicar pelo objeto — pela roupa que você pode ver de perto, tocar, imaginar no corpo.

O que Primavera confirma é que essa aposta tem substância. Demna construiu no Balenciaga uma reputação de designer que opera no limite entre provocação e produto — que usa o incômodo como ferramenta criativa. Na Gucci, ele deixou a provocação de lado. Não porque não seja capaz, mas porque o que a Gucci precisava não era de mais ruído. Era de clareza. E clareza, no luxo, é mais difícil de entregar do que conceito. Conceito você pode esconder atrás de referências. Clareza você não pode esconder atrás de nada.

O que está em jogo com a Gucci de Demna vai além de uma coleção. É uma tese sobre o que o cliente de luxo quer agora e a tese é que ele quer menos intermediação entre ele e a roupa. Quer sentir que a peça existe para ele, não para um argumento que ele precisa compreender antes de poder usar.



A Primavera propõe que a Gucci pode ser isso. O mercado vai responder nos próximos ciclos se a proposta sustenta o desejo. O que já é possível dizer é que Demna foi o único designer com a combinação específica de credencial e disposição necessária para fazer essa mudança sem que parecesse uma capitulação. Porque ele não chegou para simplificar a Gucci por incapacidade de complexidade. Chegou para simplificá-la por convicção de que o corpo, quando tratado com o nível de cuidado que a casa tem condição de oferecer, não precisa de mais nada para justificar o preço.



por Bia Figueiredo

Estrategista de branding e especialista em mercado de Luxo

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