A CHANEL PEGOU O SOM. O DIOR PEGOU O ROSTO. OS DOIS ESCOLHERAM O BRASIL.
- 15 de mai.
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No mesmo ciclo de Cruise 2027, a Chanel abriu seu desfile em Biarritz com 'Aquarela do Brasil' e o Dior colocou Victoria Blecher no Chaplin Stage de Los Angeles. Duas escolhas distintas que, lidas juntas, revelam algo sobre como o luxo global passou a enxergar o Brasil, não como mercado. Como vocabulário.
Há formas diferentes de um país aparecer num desfile de moda. Pode aparecer como tema, quando a coleção inteira é construída como homenagem declarada a uma cultura. Pode aparecer como mercado, quando a marca escolhe aquele território para uma apresentação especial, sinalizando onde quer crescer. E pode aparecer como vocabulário, quando uma referência daquele país é escolhida não para ser explicada, mas para fazer o trabalho que só ela sabe fazer dentro de um determinado contexto. É essa terceira forma que aconteceu, de maneira dupla e não coordenada, nos dois desfiles de Cruise 2027 que mais geraram conversa no mês de maio.
Em Biarritz, à beira do Atlântico, Matthieu Blazy abriu o desfile Cruise 2027 da Chanel com uma versão instrumental de Aquarela do Brasil. A composição de Ary Barroso, eternizada na voz de Gal Costa, soou sobre a passarela com a naturalidade de quem não está fazendo uma declaração, está simplesmente escolhendo a música certa para o ambiente certo. A direção musical é de Michel Gaubert, que sob Blazy voltou a ocupar um papel central nas apresentações da maison: a trilha não ambientiza o desfile, ela o completa. E a escolha de Aquarela do Brasil, com sua melancolia ensolarada, sua leveza que carrega peso, para um desfile à beira-mar, com coleção que conversava com a liberdade do corpo e com a elegância do verão europeu, não foi decorativa. Foi precisa.
A precisão é o ponto. A Chanel não estava fazendo uma referência ao Brasil. Estava usando o Brasil para dizer algo sobre leveza, sobre o modo como um corpo pode existir num espaço aberto, sobre o que a elegância parece quando dispensa esforço. Aquarela do Brasil carrega tudo isso, é uma das composições que mais eficientemente codifica uma sensação de plenitude sem nostalgia. Blazy e Gaubert sabiam o que estavam pegando quando escolheram aquela música. E o que estavam pegando era um vocabulário, não um cenário.
A poucos dias de distância, em Los Angeles, Jonathan Anderson apresentava o Dior Cruise 2027 no Chaplin Stage e entre os nomes que cruzaram aquela passarela histórica estava Victoria Blecher. Brasileira, 19 anos, radicada em Paris desde que o mercado internacional a encontrou na Celine de resort 2026. No Dior, surgiu num vestido mídi de seda com aplicações florais, uma peça que, no universo que Anderson está construindo, existe para fazer o corpo existir com presença, não para competir com ele. Blecher não estava lá como representante do Brasil. Estava lá porque tem o que o Dior de Anderson está procurando: uma presença que não precisa de explicação.

A coincidência (se é que se pode chamar assim) de duas das maiores casas do luxo mundial escolherem o Brasil no mesmo ciclo de apresentações, por razões completamente diferentes, diz algo que vale nomear. A Chanel escolheu uma canção brasileira porque ela fazia o trabalho sonoro que nenhuma outra canção faria naquele momento específico. O Dior escolheu uma modelo brasileira porque ela tinha a presença que o desfile precisava naquele papel específico. Nenhuma das duas escolhas foi motivada por estratégia de mercado local ou por qualquer tipo de curadoria de diversidade geográfica. Foram escolhas criativas... e é exatamente por isso que importam mais.
Quando o Brasil aparece no luxo global como estratégia de mercado, isso é um dado econômico. Quando aparece como escolha criativa, quando um diretor musical pega Aquarela do Brasil porque é a música certa, quando um diretor de casting escolhe uma brasileira porque é o rosto certo, isso é outra coisa. É o reconhecimento, feito por pessoas que tomam decisões criativas nas casas mais exigentes do mundo, de que o Brasil produz referências com densidade suficiente para trabalhar nos maiores palcos sem precisar de contexto adicional. Aquarela do Brasil não precisou de legenda em Biarritz. Victoria Blecher não precisou de apresentação em Los Angeles.
O que esse momento revela, lido com a atenção que merece, é que o Brasil está presente no luxo global de uma forma que vai além da demanda. O som que Ary Barroso compôs nos anos 1930 e que Gal Costa eternizou é patrimônio da humanidade tanto quanto da cultura brasileira. A presença física de uma jovem de 19 anos numa passarela em Los Angeles é o resultado de uma trajetória que começou muito antes de qualquer estratégia de representatividade. Os dois são fruto de algo que o Brasil produz com uma generosidade que o mundo de moda está, finalmente, usando sem pedir permissão.
Pedir permissão seria um sinal de que a referência ainda é exótica. Usar sem pedir é o sinal de que ela já é vocabulário. E vocabulário, a palavra que você usa porque é a mais precisa, não porque é a mais óbvia, é a forma de presença que dura depois que a temporada passa.
Amei!
Por Bia Figueiredo
Especialista em ativações para marcas.
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