O BRASIL QUE KEITH HARING ENCONTROU E QUE A LOUIS VUITTON TROUXE DE VOLTA
- 23 de mai.
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Atualizado: 15 de jul.
Em 1984, Keith Haring chegou a Serra Grande sem telefone e quase sem eletricidade. Voltou com uma paleta diferente. Em maio de 2026, a Louis Vuitton apresentou o Cruise 2027 no The Frick Collection, em Nova York, em diálogo direto com a Keith Haring Foundation e cinco modelos brasileiras desceram a passarela que atravessa esse encontro.
A pintura chama 'Brazil'. Keith Haring a fez em 1989, cinco anos depois da primeira vez que foi ao país. O que ele registrou não era cartão-postal: era o sol que queima, a energia que ele descreveu como algo que Nova York não tem. A Bolsa Alma PM do Cruise 2027 traz essa obra diretamente... as cores vibrantes, o traço inconfundível, a assinatura de uma visita que durou anos e mudou o trabalho de Haring para sempre.
Ele chegou pela primeira vez ao Brasil em 1983, para a Bienal Internacional de Arte de São Paulo, mas foi entre 1984 e 1986 que o vínculo ficou mais fundo. Haring voltou várias vezes e foi parar em Serra Grande, perto de Ilhéus, na Bahia, um lugar que não tinha telefone, que mal tinha eletricidade. Para um artista que vivia no centro de tudo o que acontecia em Nova York, foi uma troca deliberada: menos ruído, outra luz, outro tempo. Ele pintou casas, pintou muros, pintou o chão de uma cabana que pertencia ao artista Kenny Scharf. A cabana sobreviveu, o mural foi restaurado em 2012 e documentado no filme Restless: Keith Haring in Brazil (2013). Em São Paulo, um mural no Centro Cultural Tendal da Lapa ficou escondido atrás de um tapume por anos, a restauração começou em 2020.
A Louis Vuitton apresentou o Cruise 2027 no The Frick Collection, em Nova York. Uma mansão do século XIX transformada em museu, uma das instituições mais formais da cidade. Colocar ali uma coleção em diálogo com a Keith Haring Foundation e fazer os dois universos se encontrarem em terreno muito específico: o luxo estabelecido e a arte de rua que saiu do metrô de Nova York, passou por São Paulo e chegou a Bahia, agora dividindo a mesma sala.
Cinco modelos brasileiras desceram essa passarela: Ellen Borges, Larissa Moraes, Ana Beatriz Cortes, Lara Menezes e Luma Vitoria. Larissa Moraes disse que estava nervosa antes de entrar. A equipe da Louis Vuitton disse para ela não ficar... "porque a gente te ama." É uma frase pequena, mas importa. O Brasil que Haring encontrou não era abstrato: era feito de pessoas, de encontros, de algo que ele precisava voltar para buscar. A coleção colocou pessoas reais do mesmo país dentro do trabalho.
Há uma linha que atravessa tudo isso... de Serra Grande para Nova York, de 1984 para 2026, do chão de uma cabana para a bolsa mais reconhecida de uma das maiores maisons do mundo. Haring foi ao Brasil e voltou diferente. A Louis Vuitton foi ao arquivo de Haring e voltou com uma coleção.

O que fica é que o Brasil que aparece aqui não é decorativo, é a fonte. E há um padrão que os últimos meses tornaram impossível ignorar: o Brasil virou referência recorrente nas coleções e campanhas das grandes marcas. As cores, a energia, a diversidade... o país é invocado como argumento criativo por maisons que operam em Paris, em Nova York, em Milão.
O que varia, em cada caso, é o grau de profundidade do encontro. Keith Haring foi a Serra Grande, ficou, pintou o chão de uma cabana, voltou com uma paleta diferente. Há coleções que chegam ao Brasil pela imagem e saem pela imagem. Essa distinção importa, não para cancelar nenhuma parceria, mas para entender o que cada uma entrega de volta.
O Brasil tem muito o que oferecer como fonte. A pergunta que fica, a cada novo desfile, é o que retorna para cá.
Por Bia Figueiredo
Especialista em ativações para marcas.
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