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YAYOI KUSAMA FEZ DO INFINITO UMA LINGUAGEM. AGORA, A OBRA FICA.

  • há 2 dias
  • 2 min de leitura

Ontem, o mundo soube da morte de Yayoi Kusama. Ela tinha 97 anos e continuou pintando até os últimos dias. Talvez essa informação diga mais sobre ela do que qualquer retrospectiva: Kusama nunca tratou a arte como uma fase da vida. Era a própria forma de atravessá-la. 



Reduzir Yayoi às bolinhas seria quase como reduzir uma língua inteira a uma palavra. Os pontos, as redes infinitas, as abóboras, os espelhos e as salas imersivas eram reconhecíveis porque nasceram de uma obsessão muito anterior ao mercado, às filas e às collabs. Desde a infância, ela transformava visões recorrentes em repetição, padrão e escala. Mais tarde, em Nova York, para onde se mudou em 1957, levou essa linguagem para a pintura, a performance, a escultura e os happenings da vanguarda dos anos 1960. 


O que sempre me impressionou em Kusama é que ela conseguiu algo raríssimo: fazer uma obra profundamente pessoal se tornar imediatamente coletiva. Você entra numa Infinity Mirror Room e sabe que aquilo nasceu de uma experiência muito específica dela, mas, por alguns minutos, a obra também parece falar diretamente com você. O infinito de Kusama nunca foi só um efeito visual bonito. Era uma maneira de apagar fronteiras entre corpo, espaço e repetição.



No Brasil, essa relação ficou evidente em 2014, quando Obsessão Infinita passou pelo Instituto Tomie Ohtake. A mostra reuniu cerca de 100 obras produzidas entre 1949 e 2012 e atraiu mais de 500 mil visitantes apenas em São Paulo; em sua passagem pelo país, chegou a cerca de 1,7 milhão de pessoas. Gente que talvez nunca tivesse entrado numa exposição de arte contemporânea enfrentou horas de fila para entrar no universo de Kusama. Isso também faz parte do legado dela: transformar uma linguagem radical em algo capaz de chegar a públicos imensos sem precisar ser simplificada. 


Ela também atravessou moda, design e cultura pop, mas nunca pareceu apenas “emprestar estética” para esses universos. Quando Louis Vuitton, museus ou instalações públicas usavam seus pontos, era impossível separar a colaboração da artista. A marca visual era forte demais para virar decoração. Kusama ensinou, sem precisar dizer, que identidade verdadeira não é repetir um símbolo até ele ser reconhecido. É construir um repertório tão coerente que qualquer fragmento já carrega o todo.


Talvez seja essa a memória que mais vale guardar agora. Yayoi Kusama passou décadas construindo uma obra sobre infinito, permanência e repetição. E acabou criando exatamente isso: uma linguagem que continua mesmo quando a autora não está mais aqui.

Não acho que hoje seja dia de transformar sua morte em tendência, retrospectiva apressada ou ranking de obras. É dia de reconhecer o tamanho de uma artista que fez do próprio mundo interno uma linguagem universal… e que continuou pintando até o fim.

por Bia Figueiredo —  tks pelo seu legado Yayoi Kusama!


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