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OS MARCOS QUE EXPLICAM POR QUE VALENTINO ATRAVESSOU O TEMPO

  • Foto do escritor: Adriano Straliotto
    Adriano Straliotto
  • 20 de jan.
  • 4 min de leitura

A morte de Valentino Garavani, aos 93 anos, vai além do fato jornalístico. Ela pede leitura. Não apenas sobre o passado, mas sobre o que sustenta uma marca quando o criador não está mais presente.

Valentino não se tornou referência por uma coleção específica ou por um momento de exposição. Ele atravessou décadas porque construiu marcos estruturais… decisões repetidas, coerentes e silenciosas que transformaram um estilista em linguagem.

A seguir, os principais marcos que ajudam a entender por que seu nome permanece relevante.

Marco 1 — Roma como decisão fundacional, não estética

Enquanto Paris concentrava o protagonismo da alta-costura, Valentino escolheu Roma. A decisão foi estratégica. A cidade oferecia repertório cultural, história e um ritmo distante da urgência do mercado.

Ao instalar ali sua maison, ele ajudou a consolidar o Made in Italy como sinônimo de Luxo refinado, intelectual e duradouro. Roma não era cenário; era discurso.

O que esse marco ensina às marcas:

• Posicionamento nasce de escolhas estruturais

• O território comunica valores

Diferenciação real começa fora do óbvio

Marco 2 — O Rosso Valentino: a cor que virou código

O Rosso Valentino não nasceu como estratégia de marketing. Nasceu de um olhar atento e de uma decisão que se repetiu ao longo do tempo.

Valentino já contou que a cor surgiu a partir de uma cena específica: mulheres vestidas de vermelho vistas entre as poltronas da Ópera de Barcelona. A imagem não foi esquecida. Foi cultivada. E, aos poucos, transformada em assinatura.

O vermelho, em suas mãos, deixou de ser apenas cor. Tornou-se linguagem.

Não competia com o branco, o preto ou o azul… emergia deles.

Não gritava, permanecia.

Ao insistir no mesmo tom ao longo das décadas, Valentino fez algo raro: criou reconhecimento sem precisar explicar. O Rosso Valentino passou a comunicar elegância, força e feminilidade silenciosa antes mesmo de qualquer logotipo.

Não era sobre impacto imediato. Era sobre memória.

O que esse marco ensina às marcas:

Símbolos fortes nascem da repetição consciente

• Nem toda assinatura precisa ser verbal

• Quando o código é claro, a marca fala sozinha

Esse vermelho não envelheceu porque nunca tentou ser tendência.

Ele sempre foi identidade!

Marco 3 — Vestir símbolos, não apenas celebridades

Entre as mulheres que vestiram Valentino, Jackie Kennedy tornou-se um marco não pelo alcance, mas pelo simbolismo. Ela representava elegância silenciosa, autoridade sem excesso, sofisticação sem ruído.

Valentino entendeu cedo que visibilidade sem alinhamento não constrói marca. Vestir símbolos reforça narrativa.

Aplicação para marcas:

• Escolher parceiros pelo que representam

• Priorizar afinidade simbólica

• Construir narrativa antes do alcance

Marco 4 — Disciplina estética como estratégia de longo prazo

Enquanto muitas maisons se reinventavam a cada temporada, Valentino fez o oposto: refinou o mesmo vocabulário por décadas. Silhuetas precisas, Luxo controlado, pouco ruído.

Essa previsibilidade não enfraqueceu a marca; fortaleceu a confiança. No Luxo, saber o que esperar é um ativo.

Lições diretas:

Consistência constrói confiança

Confiança sustenta valor percebido

Permanência pode ser estratégia

Marco 5 — A saída no auge como gesto de branding

Em 2008, Valentino deixou as passarelas por escolha. Sem desgaste criativo. Sem perda de autoridade. Saiu no auge do respeito.

Saber parar também é parte da obra.

O que fica para marcas e profissionais:

• Timing comunica posicionamento

• Encerrar ciclos preserva valor

• Nem toda continuidade fortalece

Marco 6 — A marca que continua sem o criador

O teste final de qualquer legado é a continuidade. A Valentino segue relevante sem a presença ativa do fundador porque foi construída como sistema: código claro, linguagem consistente, valores definidos.

Marcas dependentes da figura do criador tendem a se fragilizar. Valentino construiu autonomia simbólica.

Resumo do marco:

• Sistemas sobrevivem a pessoas

• Código sustenta identidade

• Método gera longevidade

Então… É ou não, o fim de uma era?

Depende do recorte.

É o fim de uma era se pensarmos na moda como prática autoral contínua, conduzida por criadores que fundavam casas, códigos e visões de mundo com rigor e tempo.

Mas não é o fim da era da marca bem construída. O código permanece. A linguagem segue legível. O sistema continua operando.

Talvez a pergunta mais produtiva não seja se a era acabou, mas o que faz uma marca resistir quando ela acaba.

Dar um espaço para concluir…

A morte de Valentino encerra o tempo do criador em atividade, mas confirma algo mais raro: a força de uma marca construída com método, não com pressa.

Em um mercado que confunde novidade com valor, sua trajetória segue como referência prática para quem constrói marcas que desejam durar.

Valentino, obrigada pelo silêncio elegante em um mercado barulhento.

Obrigada por mostrar que permanência se constrói com rigor, não com pressa.

E por deixar, para quem observa com atenção, lições que vão muito além da moda.

Descanse em paz.

Seu código permanece.

___________

Bia Figueiredo

Branding, curadoria e comportamento no mercado de Luxo.

Para marcas que entendem que elegância é também uma forma de estratégia.

Entre em contato para parcerias editoriais ou branded content exclusivo – contato@biafigueiredobf.com

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