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HELENA MEIRELLES: A MULHER QUE FEZ DA VIOLA UMA LINGUAGEM DE LIBERDADE.

  • 13 de ago.
  • 2 min de leitura

O documentário "Som & Cor do Pantanal" foi lançado em Campo Grande na noite de quarta-feira, no MIS-MS. Em 1h18min, o filme reconstrói a trajetória de uma instrumentista autodidata que enfrentou a família, a época e as fronteiras impostas às mulheres, e chegou ao reconhecimento internacional sem perder nenhuma das suas origens.


Helena Meirelles aprendeu a tocar observando. Não havia professor, não havia método, não havia permissão. Havia o desejo de ouvir e a capacidade de guardar cada melodia na memória com uma precisão que o tempo provou ser rara. Autodidata, fabricava suas próprias palhetas de chifre e recriava, de ouvido, as sonoridades da fronteira que circulavam entre fazendas, bailes e encontros à beira do Rio Paraguai. O que ela desenvolveu não era uma versão aproximada do que ouvia.



Era uma linguagem própria, com afinações, ataques e um deslizar pelas cordas que a Guitar Player, uma das revistas de música mais respeitadas do mundo, reconheceu como referência entre as melhores instrumentistas que já existiram.

O reconhecimento internacional chegou décadas depois das primeiras notas tocadas às escondidas. Essa distância entre o gesto e a celebração é um dos fios condutores de "Helena Meirelles: Som & Cor do Pantanal", documentário de longa-metragem lançado na noite desta quarta-feira no MIS-MS, em Campo Grande. O filme reúne depoimentos de familiares, músicos, pesquisadores e artistas para reconstruir as muitas dimensões de uma trajetória que não cabe numa versão única. A personagem pública, a mulher cotidiana, a instrumentista reverenciada e o símbolo cultural coexistem no mesmo retrato, sem que um apague o outro. "Dona Helena foi uma personalidade que não morreu. Está viva no coração e na memória do mundo", disse Joaquim Ferreira, filho da artista, em depoimento ao filme.



A memória de Helena Meirelles já existia nas ruas de Campo Grande antes do documentário. O mural pintado pelo artista plástico Marcos Rezende na fachada da Galeria Itamarati, na Rua 14 de Julho, em frente à Praça Ary Coelho, é parte do mesmo projeto contemplado pela Lei Paulo Gustavo, que integra o longa-metragem, a intervenção urbana e a homenagem musical com a música "Dona Helena", de Jerry Espíndola. O conjunto transformou a Dama da Viola numa presença simultânea: no centro histórico da cidade, nas telas e na memória ativa de quem a conheceu e de quem está conhecendo agora.


O que o documentário faz, e que vai além do registro biográfico, é mostrar que a obra de Helena Meirelles não pertence ao passado. Músicos pesquisam seu toque. Artistas levam seu rosto aos muros. Espaços culturais e novas gerações reconhecem em sua escolha, a de tocar mesmo sem permissão, uma postura que continua contemporânea. A viola que ela não devia tocar se tornou o instrumento mais associado à identidade cultural de Mato Grosso do Sul. E a mulher que foi impedida de começar ficou sendo a referência pela qual todos os que vieram depois são medidos.


O documentário realizado e lançado em Campo Grande, com entrada gratuita, num museu que leva no nome a imagem e o som, é uma coincidência que parece intencional. Helena Meirelles nunca pediu licença para fazer o que fez. O reconhecimento que chegou tarde, chegou completo.


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